Tudo começou na segunda classe, durante as actividades do Natal na escola primária. Estavámos todos a fazer decoração para a sala, incluindo uns sininhos de papel dourado. Comecei a chorar porque era a única que chegada à segunda classe não sabia cortar redondo. Os meus sinos ficaram todos com bicos tal como a minha cabeça que não percebia por que razão as tesouras não funcionavam na mão esquerda.
Passado esse fatal acidente, a minha mente de criança parece ter-se ocupado de outras ideias, esquecendo (ou não sabendo) que necessitava apenas de material adequado. Chega-se à quarta classe e por alguma razão que desconheço ou pura e simplesmente esqueci, comecei a achar que ser canhoto era "fixe". Era diferente, logo era fixe.
No quinto ano recebi uma tesoura de pontas redondas especialmente para canhotos, mas, comprada na "Super-Livro", o que significa maior preço e menor qualidade. Nunca simpatizei com ela apesar da verde cor, rapidamente a deixei em casa de propósito para não ter de a mostrar na escola. Penso que nesse período do segundo ciclo tinha apenas vergonha de ser o que era.
Até aí, nunca tinha conhecido um canhoto como eu, apenas um colega nascido canhoto e grotescamente transformado em destro.
No início do terceiro ciclo, tentei então, ingenuamente, transformar-me em super-destra, apesar de já fazer quase tudo como um destro: afiar o lápis com a mão direita pelo facto da lâmina ser feita para os mesmos, cortar com a mão direita, até escrever eu tentei, só pra não borrar a tinta no papel.
Após essa má experiência, encontrei um livro "O direito de ser canhoto" de Manuel Coelho dos Santos, na pequena livraria aconchegante e velha na Baixa, cujo nome desconheço. O homem que mudou o meu ponto de vista, o único grande destro que defende os canhotos.
No início do livro, transcreve significados de "canhoto" retirados de vários dicionários. Fiz o mesmo com um velho dicionário escolar e espantou-me que pudessem dar a alunos esta ideia de canhoto que vai de normal a atrocidade: "canhoto, que executa com a mão esquerda aquilo que geralmente se executa com a direita; desajeitado (...); o demónio".
Portanto cada canhoto é o demónio em pessoa, apenas pela lateralidade que tem e que apenas é subvalorizada pela maioria ser destra.
Francamente, já me senti monstra sim, ao ver que pessoas escrevem e não borram a folha, cortam com tesouras e facas de serrilha normal na perfeição, afiam na perfeição, comem com os seus idiotas dos garfos de bolo na perfeição!!
Como é possível tudo ser construído e feito de acordo com a lateralidade da maioria e depois ainda terem o descaramento de nos chamarem de demónios por não nos conseguirmos habituar à "destreza"?